ENXERGAVA TUDO PRETO, PONTILHADO COMO SE TIVESSE CAIDO EM UM APARELHO FORA DO AR, CHAPISCADO CALEIDOSCÓPIO NEGRO DE VERÃO. SENTADA NO BARCO CONTINUEI IMÓVEL DE CORPO, POR QUE A MENTE TINHA A VORAZ ÂNSIA DE ESCREVER QUALQUER COISA, QUALQUER LINHA ABSURDA, DESNUDA, AGUDA , FELPUDA, CASACUDA, LÍRICA, TESUDA, CARNUDA, DUVIDOSA, ASQUEROSA, SEI LÁ...

sábado, 24 de abril de 2010

proibido fazer por ai o que gostaria que fizessem com você

hoje... decifro o código de alguém que faz um gesto sem saber e de outro que o faz para dizer que pode... sujeita a um ronrronar de horas

olhei para o muro e vi a ponta de brasa acesa, foguinho cortado em v pela areca bambu, a imponência da palmeira e o mato do terreno baldio de trás atrapalhavam a visão. Mas tinha alguém, tenho certeza! como naquele dia em que lavava o carro de calcinha e camiseta
...talvez quisesse ser vista, tive uma sensação tão real que cheguei a sentir o toque, o toque de olhos estremecidos. A camiseta branca encarava feroz os convulsivos e orbitais olhos.
No chuveiro não, estavam calmos e calculistas, ostentavam até um cigarro como prova do poder que exerciam sobre mim. Sobre o corpo já sem os seios dourados.
Os olhos tudo vêem!
Um vulto, êxtase, estupor.
Perco a definição de mim mesma, a língua afaga os lábios superiores, a pupila dilata prenúncio da dúvida, será que estão lá? o cigarro? a respiração ofegante? os olhos vidrados? a sombra das folhas dançando na parede branca e o vento ameno, quase maternal, se não fosse pela dúvida. está lá? não posso olhar diretamente, se perceber vai embora, juro que vai, eu iria no lugar dele.

Ela queria, ela precisava. Resolveu tomar banho no quintal por raiva masoquista. O fluxo de água impiedoso congelava cada músculo inerte e esquecido pelo tempo. A Lua cheia inteira para ela, só para ela, que contemplava a luxúria de ser mulher e por isso poder gozar com a lua. O ritual representava o chamamento do amor... passou a acender velas, climatizar o ambiente, dia após dia, tudo para a deusa Lua. Vênus, banho encantado, o ritual.
E os olhos a esperavam cheios de desejo, vontade, necessidade...

Tinha certeza agora... depois do processo.
"Isso é rídiculo! Como aquela vaca pôde me processar se um tarado ficava me olhando tomar banho no quintal?" disse ao cara do fórum.
O julgamento seria daqui a uma semana.
Intimação extremante formal. Lá, estariam a promotoria, defesa e duas testemunhas, mas daonde? quem eram os cretinos? numa salinha 2 por 2 cheia de canalhas e canalhices. Que chacota, meu deus! ter que confessar que tomava banho pelada no quintal e sabia que o tarado do vizinho ficava olhando, oh! nossaaaa! isso vai é
Bando de imbecíl, será que uma mulher sozinha não pode se sentir desejada por ela mesma e resolver fazer sexo tântrico com a Lua no quintal? Isso não é pedir muito, não é!? Pedir muito é querer um homem para tirar o lixo para mim, conversar com o faz-tudo, eletricista, gerente de banco, contas, limpar o ralo, a caixa de gordura, abrir compota... isso sim me faria rir vertiginosamente. Ah, que maravilha! Mas eu me basto. OUVIU BEM SUA CORNA MANSA?...mesquinha... vai passar a maior vergonha só para tentar mexer no meu bolso, é uma filha da puta!
Queria ver se fosse você, ter que tirar aquele lixo enorme mal embalado num saco vagabundo, cheio de chorume, uma nojeira. E as unhas incrustadas por uma sujeita preta indomável.
Aqueles olhos eram meus, eles me pertenciam, vinham de qualquer lugar, não sabia daonde; mesmo sabendo, mesmo podendo acusá-los, castigá-los, eu os amava, nunca o faria.

na sensual lavada de carro... foi um máximo! os quadris embalados por música hilstiana, em transe, sem dúvida... a camisetinha, a calcinha biquíni, porque era biquíni, mas parecia muito uma calcinha porque de pano. Alongamentos apaixonados mostavam as pernas torneadas de uma vida.
ah! não vou não. Poderia me apaixonar pela haste da palmeira que implacável me masturbaria sem perguntar por que, amor é isso, é lavar o carro de calcinha para alguém, se perder de tesão no quintal tomando banho na lua cheia, é querer fazer um ritual do amor, não fazer e depois feito mágica descobrir que já o fez sem desconfiar como, simplemente o fez, o melhor.

...amanhã vou voar para Los Angeles de rolls royce pratiado.



sábado, 10 de abril de 2010

No banquinho do velho, a espera é um pranto que se come frio. A espera desespera*. O desespero é a falta de esperança, a falta de de certeza de saber que um dia chega
*A desespera é o feminino do desespero na praça em que os homens já nascem velhos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Alguém é bom
Alguém para dar uma bitoquinha na orelha
Alguém para fazer um afago na nuca
Alguém que quer, queira, inteira
Alguém para fazer
Alguém para falar bem, sem vintém, meu neném, nhenhenhem
Alguém mau, sem grau, em cacos, esculachos
Alguém que saboreando saboreia saboreado
Alguém com animo, estranho desanimo jamais
Alguém que é cais, áz, tudos
Alguém em pleno desconforto que parece um caroço duro que nem osso
Alguém moço, donzela, irracional, alvoroço, andrógeno de pedra, aquarelas,
Alguém... que de tanto não saber quem
Alguém é ninguém
Por que alguém é alguém e ninguém é ninguém?



quinta-feira, 8 de abril de 2010

águas de março em abril ou Niterói trágica

muito dona da sua vontade, você não é assim
não sou não, né?
não! você sabe que não é. você é muito indecisa, não consegue nem escolher um salgado pra comer na padaria. alguma coisa aconteu que você não quer falar
tipo alguém morreu ou virou extraterrestre?
não cara! mas tenho certeza que alguma coisa aconteceu. acha que eu nasci ontem?
o que você acha que aconteceu? eu não quero mais... só isso
e eu igual a um idiota pensando em você, preocupado, querendo te ligar, saber, pensava caralho! a casa dela deve tá alagada, em baixo d'água. acho que vou lá, mas pra quê? não deve dar pra passar... tudo inundado
eu também tava preocupada com você, esse riozinho ai que desce do morro devia tá igual uma cachoeira, não entrou água na janela não?
ficou igual a uma cachoeira mesmo, fortão. não entrou água não. e se a casa desabasse, eu não ia nem ligar, só ia ficar triste com meus instrumentos mesmo
ah que ótimo! egoísta que você é
não, eu tô na lei da sobrevivência mesmo, só queria alguém pra ficar, eu tô na merda e vc tá me deixando. não é leal comigo
eu sou leal com vovê, você que não é leal comigo
e por que não? eu tô com você...
ser leal não é só estar junto
é o que? abandonar na pior hora?
também não, mas é estar completo, sem remorsos. se daquela vez que fui pra Cotijuba você tivesse me perdoado, tudo seria diferente
não perdoo mesmo, isso não se faz com ninguém
é? então por que quis ficar então, pra me machucar?
não! porque eu gosto de você
mas depois daquilo você virou outra pessoa...


alôi?
minha mãe já chegou em casa?
não por quê?
porque ela já saiu daqui tem uns quinze minutos e tá tendo arrastão lá no Império da Banha.
jura? e você foi pra onde?
pra Avenida Central, pra casa do meu namorado
PORRA!! o que você foi fazer ai? e mamãe?
calma! fiz as contas, passaram quinze minutos que ela saiu daqui
é! mas faz muito tempo que vocês sairam daqui...
mas ela acabou de sair daqui, tipo agora
poraaa! mas quem te falou do arrastão?
Deoflano
mas ele sofreu o arrastão ou teve um arrastão 6h da manhã?
não sei! vou ligar pra ele


o que houve? minha mãe ainda não chegou da rua.
ah! e mas isso. seus pais nunca me aceitaram. você não tem nossão do que é perder a dignidade por um olhar atravessado
ah quer saber?... cala a sua boca!
vou mesmo, mas depois vou buscar minha ampulheta e meu guarda sol
mas já está chovendo há 2 anos imbecil!
foda-se imbecil! por isso mesmo vou pegar minhas coisas... pela chuva e porque não posso mais perder tempo.


hello?
mamãe já chegou?
não por quê?



quarta-feira, 31 de março de 2010

primeiro e último movimento da cantata de amor

É bom saber que o fluxoacorde da fala é tocado assim em tom ameno de ligeireza. Porque o pensamento - massa amorfa - não compõe sintonia perfeita. Alegro o coração acelerado feito metrônomo. Cadenciado por som que remeta a um sentimento sem partitura... algo dissonante em sinfonias lilases de transformação...

terça-feira, 30 de março de 2010

Cabum, o Gigante

O pai era um homem enorme, chegava a ser desproporcional, talvez uma anomalia. Intimidava a todos pela rua. Frequentemente o centro das atenções; com bermudinha jeans e camisão listrado. Não bebia, não fumava, não aumentava a voz. Diziam as más línguas que era abobalhado, mas o descomunal tamanho foi a chave de sua reputação. Ninguém se metia a besta com ele, nunca!

Certa vez, no bar Rainha da Pipoca, Cabum - como era conhecido - resolveu sentar-se pela primeira vez fora de casa. Puxou duas cadeiras de ferro, dessas comuns nos botecos da vida. Arqueando calmamente as pernas inibidas pela incerteza, num súbito instante, transformou as cadeiras em duas folhas de papel metálico. Não pôde aguentar o próprio peso. O dono do bar agarrou numa barra de ferro e xingou o gigante com o máximo de nomes feios possíveis de se pronunciar em poucos minutos. Cabum derramou-se em pranto. Nadando em soluços e mucosas, respirou fundo e com todo delírio angustiado que borbulhava de seu estômago, gritou gaguejando: "MUMULHERRZINHA!" O estrondo foi tamanho que o pobre comerciante se mijou todinho, passando a maior vergonha aceitável para um valentão de vida vazia. A história perpetuou-se; virou lenda e ganhou infinitas versões. Chegaram até a dizer que ele amassou as cadeiras com pisões bem dados. Intrigueiros à parte, o grandão era um poço de tranquilidade, imbuído pela filosofia da paz. O auge de agressividade mais profundamente atrelado à suas entranhas, vísceras pungentes, sempre fora dizer: "mulherzinha". Mesmo assim, só expurgou a raiva duas vezes. Esse episódio no Rainha da Pipoca, foi uma delas.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Era uma velha louca, matrona.
Esbarrava em todos pela rua pelo simples fato de se sentir gigante, gigantesca. Obelisco. Passeava para lá e para cá. Não tinha nada para fazer, sempre escolhendo a vítima...
O marido, um coitado, todos os dias de mãos sujas; de manhã, placa ambulante, à noite, burro de carga.
A velha, um ser sem destino pelas ruas cosmopolitas do mundo atacando pessoas com sua bunda enormemente frenética.
Nunca se cansava, chegava em casa e ainda tinha fôlego para atazanar o marido, velho desgraçado, vou estourar sua cara... seu monte de merda, e ele, aguentava quieto como se aquela fosse a última pessoa da face da terra.
Dia como outro qualquer, saiu de casa a barreira humana a fim de jogar transeuntes no chão...
e hoje, estava tão inspirada, mas tão inspirada, que precisava de alguém feito aquela criancinha que certa vez conseguiu quebrar o braço.

ahahahahaha! interioriza um riso sombrio e grave, conseguindo dissimular o prazer do ato. Os olhos transformam-se em duas bolas de gude umedecidas.
A mãe a consola como se a criancinha fosse culpada de ter cruzado o caminho da pobre senhora.

Contemplava a rua cheia de pessoas atemporais raios coloridos comércios enfestejados imundice sinal quebrado carrocinhas subjugando os espaços públicos sarnas papelões e latas
Lá está ela! a perfeita jovem esquálida que procuro.
E a sacola três vezes maior que ela, um prato feito.

Ficou observando, espreitando, contando os passos da presa.
A menina estranhamente não saia do lugar, andava em círculos como se fosse fazer uma coisa que já tinha perdido o sentido há muito tempo.
A velha esperava o momento certo, se fazendo.
Lapso, num surto psicótico, a menina começou a apertar desesperadamente o botão de um aparelhinho que ela carregava na mão.
Aquilo a distraia fazendo tudo parecer congelado... não tinha mais ninguém na rua,... só ela... a terra parou em seu botão.

Agora...
A velha andou acelerada desbravando gentes de todo tamanho, seguiu uma linha reta em direção a menina e a arremessou longe...


Apenas uma pontada, como uma picada de mosquito ou de fina agulha de costura.
Um buraco enorme
pessoas para todo o lado
sangue, braços e cabeças rolando em trapos
muita fumaça nos olhos semicerrados

o que?
muito obrigada!
o que?
a bomba...

E a luzinha esquálida voou para longe,
ela ficou.


sexta-feira, 5 de março de 2010

meu objeto mental anda conturbado
pergunto: qual o significado do significado?
será que existe uma realidade a ser exposta?...
ou vivemos num furação de sombras desvairadas
acredito sim, que a realidade vai além da palavra de qualquer linguista indefinido
ignorar o mundo que corre lá fora, é como não andar
nem mesmo conturbado
e eu
prefiro criar pernas a ficar parado feito os pobres de espírito



quinta-feira, 4 de março de 2010

queria que as palavras virassem coisas
o lugar espacialmente habitado transcende qualquer geometria

vejo tudo gigantesco
pequena
não aguento as proporções do meu quarto

as coisas me engolem
são fortalezas intransponíveis
maiores que a torre
que há em mim
O CORPO

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

C.A.

Ela não tinha nome, mesmo que tivesse não o encontraria em lugar nenhum

em um obituário, quem sabe?

pessoas fazem isso, criam para si novas identidades antes inexatas, vagas, agora cheias de estórias contadas por elas mesmas crentes na fugacidade dos tempos. contemplam uma imagem efêmera uma paisagem uma revista rostos transeuntes, tudo isso contado pela vida, aí, inventam para si um universo de coisas grandiosas, de perto, coisas de longe ouvidas transmitidas, sentidas, criações anedóticas... porque a memória é assim, trabalha contra nós, mas também tende a nosso favor, não sempre, às vezes.

lembro-me daquela cara de anjo... um gosto de céu atravessando a madrugada com a gentileza do toque quase em câmera lenta (percepções vibráteis de um fluxo de brisa etérea ) como infinitas ninfas desnudas entoando cânticos pagãos subliminares


poética? Não


era fria, dizia francamente e a face cheia de traços desordenados. machucava por gosto de agredir-se a si mesma. não sei se mulher ou menina, estranhamente ficava em dúvida mas era esperta, tinha um quê só dela, um tempero romã de mais ninguém.


peste capaz de transformar-se em santo demônio


possuído o corpo inerte esquece sua materialidade (herança perdida e ancestral), tentara em vão criar pernas, melhor fossem asas. eu nada seria. erraria perdido em nuvens rosadas destituídas de espaço em branco vazio. colorido por explosões de espasmos ora azuis, ora roxo-acobreados, abrindo cascatas enormes fantásticas e ao fim de cada cor o céu dourado brilhante - mina inexplorada quente e úmida

não era má, ao contrário, sempre educada e gentil. tinha sua fortaleza de fato, mas quem não tem? usava chapéus enormemente intrigantes e ficava bem interessante com eles, lhe frutavam certo mistério – uma noviça rebelde

não sei exatamente. disse que era dançarina... desconfiava que fosse stripper. isso não era problema para mim.

...Ah!... Que corpo ! fui cego, e quem se importa? que tornozelos, o trapézio magnífico; dignos de uma atleta

que cara é? estranho? Os homens apreciam a bunda – cerejas ardentes , os seios perfeitos e bussolares,... e daí? todas as mulheres têm essa proeza, bem... pelo menos em partes, ...mas aquele tornozelo torneado por horas a fio pisando em ovos, flutuando, enrijecendo as canelas. É sim! ela dizia ser ótimo para isso. o trapézio - uma delicia só dela, especiaria em paraíso desconhecido lambida desenfreadamente por desejo difícil de explicar, talvez insaciável

Não me deixou!


Espere... (faço cara de coitado, os fãs adoram ver o ídolo sofrer)

É!

não seria tão depreciativa. vivíamos bem,... ou até quase muito bem, fazia tudo por ela, não cobrava, nem esperava, sempre dormia, saia por ai andando em caminhos incertos, nunca a encontrei, não assim, não na devassidão penetrante da madrugada

solitária, precisou ir embora

minha nossa! de maneira completamente escabrosa tornou-se celibatária. Preste bem atenção! não fazia mais sexo, porra! não transava, nem se masturbava; Meu Deus, tudo que aquela mulher amava fazer, era sua vida, necessidade para além da simples existência...

aquela vaca! Gostosa! ficou assexuada da noite pro dia, eu?

continuei idolatrando qualquer mulher de tornozelos ou trapézio bem colocados, tive que me contentar com pouco, nunca mais encontrei ossada como aquela. passava horas contemplando o nada, eu e o nada, de repente lembrava de detalhes impressionantes e assim montava meu quebra-cabeça

fiz dela uma musa, protagonista da minha obra-prima, um romance que tinha tudo: morte, disputa, gula, desespero, mistério, e claro, ilusões, muitas, como em toda boa história de amor verdadeira...

um best seller que nunca saiu do manuscrito, por que? talvez não terminei o livro com a verdade realmente verdadeira

ouvi dizer, mas isso foi bem depois, que ela converteu um doutor em filosofia, um rapazote qualquer cheio de fórmulas prontas extraídas de livros inúteis de bolso. rezam no mesmo convento, sabe-se lá em qual lugar do mundo, quem dirá em que posição, ou se existiu deveras (adoro essa palavra, será um bom desfecho)

agora penso em reescrever o final, é, o público sempre tem razão, é a voz da razão, e nós artistas, da insânia, da vida depravada e infantil, tudo ao mesmo tempo em doses homeopáticas. de que me adianta essas linhas se não forem lidas? talvez um dia até Fraülein (posso chamá-la assim para atiçar os homens) possa folhear com a ponta do alongado indicador essa entrevista em alguma revista ou periódico da religião que acredita


um dia...

Roteiro fictício da entrevista de Clemens Agustus sobre seu livro “cabelos embolam na nuca”

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

casa de cera

Entregava-se a seus pensamentos sentado no sofá de mogno no meio da sala. Na vitrola ouvia Ella Fitzgerald em seus momentos mais clássicos. Certa energia mística transbordava daquele sofá no meio da sala. A melodia sublime e ancestral beijava-lhe os ouvidos, que se mantinham atentos sem perder um acorde sequer.
O cotoco de vela em cima da redonda estante iluminava precariamente toda a casa.
Era madrugada... o vento uivava como uma pessoa que parecia querer falar qualquer coisa.
Fazia dias não saia de casa, tornara-se seu próprio prisioneiro. Nem sabia mais como seria pisar na rua e encarar as pessoas. No fundo nunca gostou de ninguém, preferia a solidão, é bem melhor para a saúde do espírito. Quando ficamos dependentes, nosso corpo não caminha na santa paz do paraíso.
A lembrança mais próxima de ter visto uma alma viva... um acontecimento imenso, que se passava despercebido, era como se a terra tivesse parado, ou melhor, todos eram meras estátuas, somente ele podia
Seu companheiro acordou muitíssimo cedo, algo fora do comum, já começa por aí (quem?). Estava uma chuva e tanto, a água caia impune desbravando diferentes caminhos. No início, os moradores tentavam abster-se das ações de um dia normal, mas depois tudo ficou incontrolável, ninguém queria mais ser
A chuvarada proporcionava um desanimo estarrecedor. Todos deixavam de ser humanos, de nervos estalados, sofriam processo de plastificação, os corpos assumiam uma capa externa e quando vistos simulavam bonecos de cera. No trânsito, no navio, nas feiras, no shopping e principalmente nas ruas. Via pessoas apáticas, inexpressivas, estranhas, indefesas... gotículas gotejavam imunes das abas dos chapéus e dos cabelos volumosos de laquê... ninguém se comovia, nem ele, que nunca mais saiu para saber se alguma coisa tinha mudado, se uma frestinha de luz quente havia iluminado aquelas almas inanimadas. Somente o cotoco, o sofá e a redonda estante era o que restava, mais ainda o cotoco, caso contrário, não teria descrito isso.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

veio voando com asas gigantescas verde cítricas florescentes, pernas cascudas denunciando o tempo, enorme zepelim vivo desvairado
o sangue desordenado jorrando das veias contraiu o corpo
deste tamanho rachou paredes balbuciou ruídos de unica nota
mirei um chinelo 35/36 carcomido de crateras no asfalto
despencou o enigma entre realidade e ficção

abri os olhos e vi perninhas infinitas como luzes inacabadas de um trem veloz. balançavam fantasmagóricas. sentada percebia números na ponta de cada uma delas, verdes cítricas florescentes
o frio da madrugada anestesiava o corpo e lembranças irracionais do passado
tinha uma manta com cheiro de sal, vermelho intenso
a cor do lenço de uma senhora grudada em outra perna verde vacilante

não vai descer não? disse uma voz ao longe em tom ameno
porque?
é a parada


labirinto
portas e precipícios
na casa das rosas existia um caminho divorciado de destino, lugar que chegava aonde quer que fosse. aquilo sim era o sonho voraz de todo errante, que erra sem saber acertando e suas migalhas florescentes irradiam retas iluminadas para pontos cardeais inexatos, talvez aqui.
mas não lá
perguntaram por que era feliz, porque sim, respondi
porque sou, não era e serei ludibriada à espera do caminho do onde...
fixando em mim o corpo do eu
ao longe,
um canto gregoriano poderia descrever muitas coisas
não as notas que se fazem pensamento de alguém que mira um ponto fixo invisível para si próprio
porque de fuga

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Seres azuis
Paródia da sonata de Paganini.

O homem é picado
por aranha ele é picado
Paralisado então!
no tempo acelerado
de seres espaciais
Abduzido... ele foi
Peçonhento é o veneno (2x)
Todo mundo nu
pintando o corpo inteiro
com lápis de olho azul
feito um ritual!
Pensando acreditar que ele era
um ser espacial...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

confusão de olhos

como duas pessoas que se amam e estão sempre passando por uma mesma avenida sempre cheia
quando vazia não deixa que se percebam na vastidão do nada

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ônibus: nada para fazer o lance é pensar besteira. ui

em tempos de extrema correria pedir se tornou um verdadeiro ofício. todos pedem e darão os que podem ou necessitam vago sentimento de completude, porque nem sempre a dádiva é pelo outro e sim por nós mesmo.

(estranhíssimo, hoje assumi um pseudo-perfil-de-auto-ajuda)

Em verdade,
só queria dizer que cada um dá o que tem e ponto de exclamação
e como diria Sir. Willian " ser ou não ser eis a questão" - vulgarmente conhecido por Shakespear


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

amigos antigos em casas novas e um quarteirão girando na farta esquina da vida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

aprendiz metálico

sempre que terminamos uma coisa pensamos: o que ganhei com isso? As vezes tudo e na maioria
Porque se essas coisas grandiosas coubessem dentro de um baú, aquele que você ou quem quisesse descobrir você pudesse abrir e desvendar todos os mistérios do universo-uno (seu ou meu). Deste mesmo baú sortearíamos todas as coisas possíveis para falar de coisas que definem ou dão forma a outras coisas... E por que não falar de coisas, se no fundo, do mistério ou do baú, sempre acabamos por falar de... cooisas!
Coisas são devolvidas, por querer ou obrigação
Coisas são achadas, por sorte ou predestinação (insistência)
Coisas são perdidas, por persistência ou distração
coisas são guardadas em lugares tão escondidos sem direção possível nessa materialidade
sabendo de coisas ociosas perdidas encaotadas na gaveta do supramundo enigmatico psicodélico
clara mente nada
travessia

nunca subestime os ditos populares

sai de casa
estava andando pela rua...
foi quando passei por três pintores pintando em imperfeita sintonia - pintavam um singelo muro - o da direita pintava para direita, o da esquerda pintava retas para esquerda, e o do meio pintava em círculos calculados.
Com toda aquela bizarrice, meus passos foram ficando cada vez mais lentos e pude ouvir a conversa:
ano que vem tô na boa! vou ser coveiro - disse o da direita com ar de despreocupação

...

disconjurooo!! - disse o da esquerda perturbadíssimo
vai cuidá de gente morta? - completou o do meio de olhos esbugalhados
NÃOO! vou vender couve na feira

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

o lado inesperado da sombra



assustei-me com o tamanho da sombra que projetou-se na parede. era obscura com proporções de figura mitológica
a garganta rachava como se fosse o chão rubro do sertão, rachava em cruzes diagonais
pontiagudas
felinamente em brasa
a ardência do seco, do ressecado
o desespero do mal-estar físico apoderava-se do meu corpo
tremia naquele absurdo de não saber exatamente aonde estava

navio de pedra outrora fantasma, vagando indeciso, em marés de chocolate tão sujas mais tão sujas, que de chocolate o petróleo subia aos olhos
de quem vê e de quem sente
animais cristalizados sem saber a qual tempo pertencem, porque no fundo daquele mar não pertencem a nenhum lugar, não-lugar... quem sabe?
continuo vagando e o vento assovia a aurora, que chega inútil, infantil, obsoleta
esqueceu-se que há muitas décadas perguntou: e quem vai lembrar de mim? Ah sim! estão vendendo encaixotada ou em lata,
ai fica mais barato.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

tinha uma história que nunca começava porque não tinha nome ou será que ela não tinha nome porque nunca começava?
mas isso virou o mito da história que nunca começava porque não tinha nome
nela, um locutor de rádio recitava poesias
as poesias dele só podiam ser ouvidas por ele com o ouvido direto
se ele ouvisse as poesias com o ouvido esquerdo, saia se arrastando por ruavenidas representando tudo que dito era na poesia.
ele já sabia
ele já sabia
se arrastando por ruavenidas espantalho enigmático clarividente o quão importante era ouvir as poesias que recitava com o ouvido direito
porque quando esquerdo
nunca mais voltava a ser como fora aquele dia mesmo

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ah não... 6h, ai puta que pariu!
ai xixi! banheiro caminha gostosa o despertador só vai tocar 10 pras 8. graças a deus!
que isso? d’aonde veio essa terra? (dois montes de terra tomaram o lugar da cama) e a televisão que não desliga. Porra! já vi o filme, passa numa pedreira. flutuava na pedreira como imperceptível fumaça de pedra, pó translúcido de cristais incolores, só cristais.
olhou o relógio de novo, tinha medo da hora, às vezes ela não despertava.
manhecendo. tudo é tão rápido em pé como muito o divagar deitada.
10 minutos
o barulho do ventilador parece atrasar o relógio, morno, ventilava do jeito que são feitas as coisas desinteressadas.
esqueci aonde estava, tentei subir aquele monte de terra quando pisava meu pé sumia naquele universo movediço de água turva da terra.
A televisão chiava, mesmo assim não conseguia enxergar a tela inerte, via minúsculas partículas de luz que adentravam pelas fretas da madeira, felizes por anunciar um novo dia, que além de novo era lindo. Vejo o azul sereno através das pálpebras fechadas. Nua em corpo etéreo me aproximei da porta envidraçada, lá fora tudo estava mostarda e um rio de chuva fluía imponente pelo jardim ostentando arvores centenárias e derivas de uma época. A vida deve ser exata.
queria ficar em casa dormindo quase uma eternidade, mas o relógio só 10 minutos.
no quarto encontrei uma bateria preta, meio quebrada, os pratos jogados, o som rarefeito por janelas e becos e desejos de saber d'aonde vinha a magnífica melodia?
Toquei,
mesmo sem saber...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Quando o chocolate acaba é foda


a menina foi desligar o rádio decidida sozinha ia pra outro canto
cigarro de cravo única janela aberta
de costas o rádio tocou de novo o cigarro apagado cinza de faca alto-falante
largou a faca tapou os ouvidos com mãos enormes de medo sozinha ia pra outro canto
ruídos compassados do chão imundo de cacos escarros cores amassadas ressequidas
pássaros ensurdecedores gritavam batendo pratos de folha, o céu assim amarelo traços de laranja escorregavam macios e mornos quase água termal
involuntários ombros subiam batiam arritmados anti-música nó cabeça envergonhada
olhos fundos fúnebres de dentro encharcados, um lugar de
vai saber o querr xiiiiiii era o rádio tocou e ninguém sabe o quiiiii
um farol cinza de faca estrondou pelos ares um som gravexixxx
longa vigília perseguida pelo giz das anotações – chiado estranho
o chão escorregadio
pedra incrustada vermelho sangue destemido aterrissando sobre o tapete veloz

silêncio

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

beijo obtuso

hoje acordei com marteladas profundas na cabeça, é que estão fazendo obra em casa
melhor seria se a obra fosse obra da cabeça, porque ontem pensei muita coisa interessante como sempre na hora de dormir, sem dormir para pensar coisas interessantes que no dia seguinte sei que não sei ao mesmo tempo
será que armazenamos cada coisa interessante que pensamos e depois em algum tempo da vida, em algum momento crucial para nossa vida essas coisa interessantíssimas aparecem e resolvem um problema que assolava a humanidade
é, acho que se essas coisas interessantes fossem tão interessantes assim, nós lembrariamos a qualquer tempo
uma vez eu vi uma reportagem numa resvista, provavelmente de neurologia, não, é claro que era de neurologia! se bem que poderia ser só de saúde mesmo; então, lá dizia que cérebro, às vezes, guarda coisas sem importância em detrimento de coisas importantíssimas, por exemplo, acredita que esqueci o nome do menino que me deu o primeiro beijo? o beijo foi uma merda, mas não chegou a ser um trauma e mesmo assim esqueci o nome do indivíduo, por outro lado, lembro perfeitamente do primeiro garoto que dei uma bofetada, foi incrível... direita esquerda pá pum!
talvez não seja tão importante um beijo merda, e sim uma bela porrada bem dada.
veja lá o que acha importante, vê se não vai sair por ai esbofeteando as pessoas, até porque, tenho reparado que as pessoas acham importantíssimo agredir e não se interessam em beijar
estranho...

domingo, 20 de setembro de 2009

varanda pra que te quero

na varanda uma garrafa de água e um cigarro forte de cravo, as pernas dobradas em joelhos nas orelhas, quentes de ouvir mal... mau agouro mal emporedrado poroso verde-azulado, mais mau que o bom.
ninguém sabia, mas também o que poderiam saber? que dou saltos maiores que as pernas?
pernas...
que pernas? é o caralho! não aguento mais isso não
achar que poderia autorizar todas as coisas que acontecem, como se acontecessem por mim e não por elas, elas que se fodam eu sou a melhor, sou a controladora dos vegetais que chegam escondidos mais chegam, sempre chegam, coloridos, demais
a varanda é linda pratiada escorregadia, milhões de anos se passam e são iguais, quase iguais todas as varandas. e eu? pra que vou querer uma varanda? lugar que não merece todos os passos. para
madeira demarcada na boca do estômago. perâ ae! vou fumar um cigarro e ver se ainda tenho estômago nesse tempo que para ter estômago tem que pagar, engraçado? fuma ai.

sábado, 5 de setembro de 2009

na cama a gente goza, na cama a gente nasce, na cama a gente morre; já dizia um sobrenome Dourado e quase mórbido

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

água salgada ou clorada pesa mais

meu computador tem falhado ultimamente, as placas que deveriam arquivar os arquivos estão desarquivadas, mas existe a rede, enredada sigo simplesmente pelo fato factual.
são só palavras perdidas no vão da memória viajando sozinha.
um dia volta
quem sabe?
num campeonato de bombas d'água, mergulhos desafiando a gravidade liquefeita
já não sabia e me encontro
perfuro a pedra densamente existencial, já não me lembro... é como ir à caixa de correio e querer saber como vim parar aqui? de onde eu vim? aonde?
não existe mais casa, lugar
a imagem do espelho é outro;
outro, e conversaremos com afeto até quando?
imobilidade de pedaços espalhados, espelhados, visão que todos vêem e não sabem que vêem, ou não dizem ou não sabem dizer, sentem errado. será?
só lembro que esqueço e esquecer é preciso para não se perder em espaço vazio.
coisas importantes, importantíssimas pulverizam-se no ar.
só resta uma coisa
cogitar se a água do mar é mais pesada que a água da piscina.

sábado, 15 de agosto de 2009

é castanha do pará, açai pra mastigar,
tucupi no tacacá, siriá no carimbó, carimbó no siriá

Venho de Belém...
Emocionei-me, inestimavelmente, perante paisagens tão sossegadas, tão demarcadas por uma imensidão de águas marrons, que contrastando com a terra de um outro marrom, simulavam a fluidez do chão. Um chão fértil, agraciado pelas frutas de todos os cheiros, gostos e cores. Frutas que tornavam nossos caminhos deliciosos e cheios de texturas.
Pensei nisso de amar as texturas. De morder a suculenta carne de um caju, ou abrir a vagem do ingá para chupar suas admiráveis frutas minúsculas, que vinham aos montes, tornar-se-ia, quem sabe, uma obsessão.
Poderia viver ali para sempre, mas nem todo o sempre me faria entender o que era viver daquela vida. Acordar naquele universo, aonde a modernidade chega esmagadora, impondo à casas sem portas nem janelas, um aparelho de televisão a cores e uma roupa no crediário.
Geladeira? tem não! é peixe com açai, farinha de mandioca e camarão do matapi
Banheiro? duas moitinhas à direita e prummm
Diziam que a vida era triste...
E curar a melancolia com uma realidade inalcançavel? Não é triste? É patético!
Arrebenta os nervos, porque eles nunca saberão se existe um mundo para compensar aquele. Aquela miséria poética, aquela miséria em que o sol nasce e se põe numa imensidão de águas marrons, cristalinas e doces, tão doces como os peixes que a habitam, e que não sabem mais nadar.

MUUM

sexta-feira, 3 de julho de 2009

invisível vaca arcaica

ah... como me sinto bem!
sentir no erro consentimento
o despertar para a vida, o sonho
a existência

(inspirado por ignotaprova de alguém que não prova nada)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Beneditu sumiu

Vai seu Benedito

– Tá boniitu... vai faze exami di feze?

– Ora... vá à merrrda!

Benedito seguiu pensativo

Na cabeça de Benedito: será que ele tá falando porque sabe? porque oviu?

Minha nossa... aquela vaca disse que não ia faze fofoca! Puta que....

Falou di exami di feze. Fezes. Por quê?

Passo pelo mermo caminho, tava me tirando pra marica, me sacaniando. Aquele cabra de uma figa! Com um tanto de cabelo branco, já deve te passado pela vergonha...



O carro em alta velocidade

– BIBIIIIBENNNN! OLHA A RUA SEU VELHO MALUCU!

– BARBEIRU FILHA DA PUTA, BANDALHEIRU! COMPRO A CARTEIRA, SEU DESGRAÇA!



Benedito seguiu pensativo

Quasi ralei meu cú nu chapiscu. Ai meu deus! faz isso comigo não, me dá um sinal, só um sinal... isso não ta certo! um homi que nem conheço invadindo minha intimidade, minha coisa di machu...


Dona Maria

na cabeça de Benedito: – dexa di fala bestera Benedito! Já marquei sim! e você não vai sumi coisíssima nenhuma. Ah... para homi! Cê tá com medo de disfaze a masculinidade? Si garante não, homi?

– mi garanti? ... ai meu deus! é aqui. Largo das flores, 747.

O homem entrou andado simplesmente

– Senhô! Senhô... tenque dexa indentidade. – desesperou-se o porteiro.

– identidade uma ova. – resmungou Benedito entrando no elevador.

Benedito parou pensativo

Acha que eu queru me identificá? quiria mermo era tá de disfarci, coisa meio 007. Mas aqueli cara não... era machu!

Tinha que sê 402... Olha, sabia! É númeru di viadu, o cãnalha boto au contráriu só pros otárius não repara.

– vô imbora agora! Tá pensandu que vai me açoitá, tá muuuito inganadu.

Surge um senhor de fraque salmão

– Posso ajudá-lo? O senhor deve me perdoar, estava almoçando e regressaria logo logo. Esperou muito?

– quem eu?

– É! o próximo paciente, não?

Benedito olhou para baixo e percebeu que o homem tinha uma perna maior que a outra, voltou a olhar para cima e reconheceu aquele olhar.


– Nadinho? É você?

– Benedituuu...

– ham! Que dize que tu viro médicu? (no bom sentido é claro!)

– xiiii! Entra ai.

Entraram ambos felizes e sorridentes. Até a secretária entortou o nariz para tamanha alegria naquelas circunstâncias.

Conversa vai, conversa vem...

Benedito fez o exame

– nem foi tão mau assim... mas não conta pra ninguém não, hein oh? Nadinho Boca Mole. Hahahahahahhahaa.

– Segredos da profissão! Vô ti dize que uns até se perguntam por que nunca experimentaram antes...

– Disconjuru!!! Cambada de baitola...

– HAAAHhhahaha! Não precisa ser com homem, né oh?


Benedito pensativo...


– Então... Beneditu, foi muito bom te encontra. Ééé... Já que mora aqui perto, o que acha de almoçarmos amanhã? pra botar o papo em dia.


Benedito pensativo... e de boca aberta...


– tá doidão? é Zé Machão! HAHAAAahaha!

Agora lembrei! Era assim que a galera te chamava Zénedito. Sempre com a mesma cara, o mesmo olhinho.

– Ih! Sai fora Boca Mole. Cê também não é das maiores beldades.

– Enfim, tenho um paciente agora, e o almoço? Pode ser?

– Mas é claro! Quero saber como cê entro nessa bocada de médicu.

– então até amanhã. Fica combinado 13h.

Nadinho Boca Mole levou Zénedito até a porta como nos tempos dos jogos de botão em seu quarto.

Bons tempos aqueles... Benedito desceu aliviado como se tivessem tirado uma bigorna das suas costas.

– Quem diria? Maria Louca não vai acreditar quando eu contar.

Dona Maria Louca

– viu só? Sabia que num ia tê male algum! Vô passa seu terno pra amanhã cê ta bem bonitão... meu maridão importantão!

– muuitu bem mulhé, vai cuida do seu maridão importantão!

Enquanto isso... Benedito parou pensativo

Boca Mole... quem diria? meu chapa. Amanhã vô sabe como ele viro médicu... ops! Pêra ai! Ele é meu urologista. Meu deus! Sai fora, não posso almoça com esse homi. Ainda mais amanhã, vão dize que gostei. Zénedito seu animal! Burro pra caralhu! E agora?



No dia seguinte, Nadinho ligou para a casa de Zénedito para saber se estava tudo bem

– Alô! Por favor, o Seu Beneditu esta?

Dona Maria

– Beneditu sumiu!

terça-feira, 9 de junho de 2009

escrever na fugacidade dos séculos
só se for em arabesco
trançado a finas tramas
tecido de formação

quinta-feira, 14 de maio de 2009

GOELARDENTE


goelardente goelardente goelardente
goelardente goelardente goelardente

Um hotel de infinitas facetas
corredores ignorando horizontes
Cada canto um arranjo peculiar
Chão de rabo de pavão, paredes discotecadas, aromas afrodisíacos exalados por plantas exóticas e tropicais,  pessoas cristalizadas em carros alegóricos, boás, marabús e estolas, lantejoulas, bolhas de sabão... é carnaval! (bad trip) quitutes da casa da vovó, barmans pretos, gregos, todos nus, ostentando suas oceânicas serpentes em bandejas e servindo drinks caleidoscópios em vidros coloridos.

Lá fora era só neve, tanta, que a paisagem era uma fotografia em papel couché branco brilhante – ruína da história que se passara.
Para mim ainda não há passado
O tempo insólito deita sobre mim sua gosmenta e movediça sombra
Confinei-me a viver para sempre, ali
isso...
se a reinvenção de algo que nunca vai deixar de ser
existir realmente

Jofrey, por favor:
um drink no inferno.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

ele ligou de novo.
digo sim, digo não?
...é
o amor tem dessas coisas
um não sei o que de librianos

segunda-feira, 13 de abril de 2009

venenosa e doce

ou chamamento deSamor de Bruxa


ávido desejo de espera

eis que caiu a noite

uma madrugada fria

por não estar distraído pisou em falso, manipulando

curvas e aromas e delícias

o veneno escorreu; sentiu desabrochar o antídoto (oposto extremado de forças límbicas) de metabolismo voraz

inseto invasor de flores

a planta carnívora ataca e o engole lírica, amorosa.

doce fel dos desamores sem nome, sabor de não deixar-se distraído e não dizer...

profeticamente nomear o caminho amaldiçoa o errante – erra pensando naquele reflexo do nada inominável.

ai liberta-se da verdejante fonte que nutre e não cessa

perpetua-se venenosa e doce

sábado, 11 de abril de 2009

vem comigo, no caminho eu te explico...


indefinido sem saber ao certo em qual traço me traço.

um invólucro de chamas remediadas aceleram o ser que há em mim

fonte do que não era – nunca devia ter sido.

unidade indivisível da expressão, o estômago embrulhado de papel crepom dolorosamente descolorido.

não devia ter me metido a fazer o que não era para ser feito.

é o caos!

sou o caos...

organizo no centro partes estilhaçadas de uma mesma coisa

antes múltipla; agora retalhada.

esfumaçado ando, ultrapasso pontos de vista, derivações, poderes; paredes indefiníveis de um tijolo unânime.

tem uma cabeça de macaco na ponta do meu lápis. escreve intenso sem saber se é de hoje que começou a pensar em símbolos; psicografar saberes inconscientes reunidos em um lugar ou não-lugar.

a escolha é fria, ávido desejo dos ventos, sentimentos invisíveis retos batidos inalados em absorção sem fôlego.

trôpego desço aos confins do universo

um invólucro de chamas remediadas aceleram o ser que há em mim

incrédulo olho para o céu de um banheiro no submundo (que é o meu) a luz fria ardente de partículas embolotadas.

paredes raspadas pelas unhas de animal dopado escancarando face, segredo incorpóreo desatando mascaras malignas sociais.

ato ou efeito de incrustar-se com comportamento limoso, escorregadio

vadio ao nada.

malandro dos becos ilustres desviando da linha reta; obliquamente a um plano ou uma direção.

me faço traço!

um grito incontido me arde a garganta – não – mais uma só mais uma...

uma verdade verdadeira, umas caras de esculacho.

sf. 1. Ação de atormentar, de perseguir. 2. Psiq. Sentimento ou ideia que, gerando angústia, se impõe à consciência de um indivíduo. [PL.: -sões.]

obsessão, me diga se entende melhor?

sf. 1. Pesar de ter cometido ação má ou pecado. 2. Pesar profundo. [Pl.: -ções.]

não é o que você esta pensando

esta pensando em compulsão, não é?

é isso,

mas errou,

eu errei e só achei compulsivo – que compele, irreprimível.

compulsório – que obriga ou compele.

é! fomos compelidos a acreditar que compunção (é isso idiota!) compunção e não compulsão...

vá ao dicionário, até você pode buscar essas definições de merrda da grande bosta social.

vai,

até você pode ser Aurélio.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Entravamos na casa pela primeira vez.


Era como um sonho: uma porta maciça se abriu...
logo pisamos em azulejos perolados.
Móveis imponentes, coloniais.
O ambiente era climatizado a óleos essenciais de rosa branca, gerânio e cacau.
Deliciosamente agindo no cérebro, sistema de engrenagens límbicas.
Guardamos nossos instintos primários, silêncio de vontade, introspecção.
Nebulosidade.
Do ápice da escada para o centro do hall desciam triunfantes as quatro senhoras, com vestidos floridos e tão coloridos quanto a natureza pudesse suportar. Porque a natureza não era ser bela e sim, elas.
Lançavam-nos olhos curiosos - secreto assombro de tias.

- Que casa magnífica! Parece um castelo medieval.
Moram sozinhas aqui?

- Sim

Olhávamos um para o outro como se algo nos inquietasse.

- é que nunca demos as mãos...

De fato, reparamos que cada qual tinha exatamente duas mãos desaneladas.
Inalávamos entorpecidos de sensualidade e auto-estima.
Seriam elas casais?
agindo, portanto, de maneira indireta como convenientes tias.

Vencendo o medo e a timidez, ele disse com voz empedrada:
- As titias são unidas por laços desatáveis, laços consanguíneos.

Forjavam o mistério das mulheres autossuficientes. mulheres de seio ancestral, equilibradas em vigília eterna; feiticeiras mumificadas no tempo.


Sozinha, tocava-me um sentimento alheio.
Inspirava esfumaçadas lembranças guardadas numa região inefável.
Comecei, de repente, a ponderar as coisas, como nunca; nunca antes.
O que estava acontecendo?
Sentia um tipo de mudança hormonal intensa, como se o cheiro exalado pelo meu corpo mudasse decisivamente.


Confissão:
contorceu-me uma hipervisão insatisfeita, não mais o olhar suave de antes.
Ele borrifava desconexo aerossóis desconfortáveis - quilos e quilos de glândulas selvagens.
desfiz-me surpresa naquele etéreo sinal.
Não era nada, só a certeza do erro.
Porque o despertar afrodisíaco deve partir de íntimos fluidos.
Coisas secretas do amor!
Corporificação
Ou não podemos dar as mãos...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

devaneio em 40segundos


No desconhecido é aonde tudo acontece. as Influências são invisíveis; não percebemos o traço instintivo da busca. Buscamos, sim. Pelo simples fato de buscar alguma coisa. Completar algo que não se completa, algo incompletável. Somos pela metade. se ser fosse holístico, não seria ser e sim, seria... é!

HAHAhahahahaha!

Indefinidos por um alfabeto volúvel, que se altera pela vontade de quem? Também não sei, ora bolas. de terceiros, quartos, quintos dos alteradores de discursos. Que há séculos atuam desconstruindo mentes seguras de si. transformando tudo numa roda-gigante de um parque enferrujado, sem alvará e no interior de um lugarejo.
Renunciaremos à diversão, indevidamente compenetrados em sobreviver em circos perigosos de parafusos caducos cor de telha.

Só sei que percorreremos as veredas do espaço, não de qualquer espaço, porque qualquer espaço de força gravitacional ainda não foi comprovado cientificamente, mas de espaço sideral.
da poeira cósmica, do buraco negro, da falta de leis, das estrelas... sinestésicas fantasmas (semi-mortificadas).

Sopraram em meu ouvido que a ideia esta no ar, não esta ideia, qualquer uma, seja ela infrequentável ou não. Uma força fotográfica fixa a ideia em mim como uma imagem 3D. Percebo-a em perspectiva de mundo; de um mundo assolado por mídias regraváveis.

Preveem; lhes pergunto: Alguém me entende? com tanta falta de acento?
A comunicação esta ai, esta pairando querendo nos dizer alguma coisa...
onde estão os ORIGINAIS? ou o que quer que sejamos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sonhando acordada


memória e esquecimento
o mundo de
ahh! como é bom
eu vejo tudo
com mãos aveludadas

PAIXÃO SEGUNDO prazer esfumaçado


tédio insuportável.

prazer solitário com cigarros quase enfileirados.

uma abaulada cadeira de vime espreitava um jardim de pedra, planície imóvel.

vigília constante como instintiva noção do espaço, desguiado por perninhas confusas.

o corpo estático e cortante assume posição de ataque.

deitada em horas desbaratadas, espero, espero... o momento certo...

o momento de PULAR... PEGUEI!

pressiono-a sob força controlada. dou-lhe chance com um suspiro de esperança; ela corre embriagada com a vontade de outros que já estiveram assim.

acho graça

cócegas latentes quase pequenas.

às vezes nunca, uma compaixão pulsava demasiado estranha.

queria entender porque essa obsessão? só com elas, sempre com elas.

Asquerosas e Crocantes como outros que já estiveram assim.

patadas bruscas e suaves para ganhar tempo, arranhões dissonantes a suspendiam levemente do chão, petelecos levitantes, rodando, escorregando, encerando.

subitamente encararam-me quatro olhinhos amarelos; revidando descobri uma estrutura semelhante a um óculos - óculos de silicone oval, as hastes negras.

“Só estava indo dar comida para meus filhotes” divergiu no ar.

senti um enjôo tremendo borbulhando do estômago.

lembrei de meus amores líquidos, amores que se vão, algo sempre em correnteza.

Me Perdoe senhora, pensei.

Clarice – respondeu.

Já ouvi este nome!

Não importa,

desisti de ser na hora e com gritos de insatisfeção!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Transtornos Neuróticos Contemporâneos



Semanas esperando
Um curso de sábado; nunca imaginei tamanha ansiedade.


No dia de realizar meu desejo, há tanto incubado, acordei 10h da manhã. A contação de histórias começaria 14h, não precisa dizer que é da tarde, né? isso mesmo! era um curso para aprender a contar histórias, e a ouvir também. Mas não pense que era um curso clandestino, para mentirosos, estelionatários, ou algo assim; pelo contrário, era um aprendizado de vida - vivida e vivenciada.


Passei noites em claro, confabulando: o que diria? qual história contaria? como me comportaria? será que gostariam de mim? da gola do meu vestido? (essas ocasiões pedem gola, e das grandes) e do meu cabelo? Acho que dei uma exagerada no laquê, é, uma levíssima exagerada.


MEUS DEUSES DOS CÉUS!
O relógio marcava 13h.
Fiquei com os movimentos desarticulados. Estava atrasada!


Comi rapidamente, coisa que não estava acostumada, um macarrão alho e óleo, eis outra coisa incomum, pelo menos para mim. Consegui a receita com uma amiga, que ao ditá-la, confessou o tal segredinho, aquele que existe em qualquer culinária. Para ficar perfeito, no ponto... muito óleo, ou muito alho? Por via das dúvidas, usei muito dos dois.


Sai correndo, nem assim. Correndo, esbarrando, suando desengonçada, atropelando transeuntes alheios...


Cheguei quase 1h atrasada. Que vergonha!
Acomodei-me em uma cadeira na última fileira.


30 min depois, meu estômago começou a reivindicar existência.
Como se o houvessem engravidado dois monstros fantásticos, ele se remexia, se contraia, se tremia espasmodicamente...


Agüentei essa luta mediúnica sabe-se lá quanto tempo. Mas fui valente, forte, inteligente, despudorada... é despudorada! Pois, vagarosa e elegante, corri para o banheiro. Fiz isso barbaramente decidida!


Chegando ao jardim das delícias, quase um lapso de orgasmo, a não ser pela triste verdade: as duas únicas cabines estavam ocupadas.


Me remexi, me contrai, me tremi.


Quanto mais eu rezava, tanto mais a fila atrás de mim crescia; brotavam mulheres por todos os lados, quase uma procissão improvisada (claro que se outras estivessem rezando, talvez até estivessem, por motivos diversos, dos quais jamais saberemos).


Os monstros do estômago ainda guerreavam bestiais.


Finalmente, uma senhora saiu do banheiro e disse “não tem papel!”


Olhei estarrecida para os lados, mexendo a cabeça num ritmo descontrolado, e percebi aquele maravilhoso papel lixa de secar as mãos. É isso!


Entrei na cabine como quem descobre o sentido da vida. Descarreguei toda minha consternação, sem me preocupar o quanto esse despertar de uma nova vida seria inoportuno. Frente à irrelevante platéia, deu-se o legitimo Nirvana, acessível, aflito, malcheiroso!


A pior desgraça estava por vir, porque a senhora mensageira do papel esqueceu-se de avisar sobre a falta d’água. (AAAAAAH!!!!)


Despencando em meio a assuntos femininos e risinhos extrovertidos, retirei leite da pedra, pois em abrangente meditação, consegui um último e tímido esguichinho.


A tampa estava fechada, recorri a todos os santos e também aos deuses que tinha apelado antes, mesmo tendo eles sido bastante ingratos.
Por favor, rogai por mim, crente pecadora! levem essa maldita escultura de barro falsificado.


Quando tive a coragem de abrir...


Lá estava ela, uma bolinha abastada, rebelde e cheia de si mesma.


SIM! VOCÊ saiu vitoriosa!


Só não lhe disse umas boas verdades, porque minha situação ficaria ainda pior: a coisa estava preta, definitivamente, não cheirava bem.
Com o gritinho de agora pouco, já ouvia dissonantes comentários. (Tá bem! Não foi tão gritinho assim; vamos, cortem minha cabeça, acabem logo com isso!)


Precisava pensar em outra saída, outras possibilidades.
Deixar aquela bolinha ali, fora de cogitação.


Pensa; Pensa; Pensa. (Todos os meus pensamentos foram despejados).


Pegue-a.
Sopraram no meu ouvido. Não sei de onde veio esse impulso - eu juro!


O câncer se apossava de todo meu corpo. Precisava sair dali, daquele buraco, daquele antro fétido de excretas.


Distraidamente, começava a ver flores multicoloridas, suculentas, exalantes de um aroma a dama da noite. Um alivio, estranho abismo da imaginação.
Sentia-me debruçada em uma janela sem vista; enxergava madeira maciça, uma porta fechada para o mundo, que corria despercebido.


Imbuída num desespero enraivecido, fora desse corpo, acertei a mão delicada na afável lixeira, para resgatar meu próprio papel, afinal, era meu, e eu não poderia investir nessa empresa de mãos abanando.


E foi assim: com meu próprio papel, tentei agarrar minha própria bolinha.


NÃO!


Ela se desfaleceu, multiplicou-se claramente e revidou: “Somos todas parte de você, mulher despudorada!”
Aquela bola de merda!


“VAI TOMAR NO CÚ!” Respondi a altura da baixaria.


Derrotada.... procurei me recompor. Sem tocar em mim, é claro!
Levantei o olhar de mulher despudorada, sai da cabine e elegantemente avisei à seguinte:


“Cuidado! Está sem água”.