ENXERGAVA TUDO PRETO, PONTILHADO COMO SE TIVESSE CAIDO EM UM APARELHO FORA DO AR, CHAPISCADO CALEIDOSCÓPIO NEGRO DE VERÃO. SENTADA NO BARCO CONTINUEI IMÓVEL DE CORPO, POR QUE A MENTE TINHA A VORAZ ÂNSIA DE ESCREVER QUALQUER COISA, QUALQUER LINHA ABSURDA, DESNUDA, AGUDA , FELPUDA, CASACUDA, LÍRICA, TESUDA, CARNUDA, DUVIDOSA, ASQUEROSA, SEI LÁ...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Beneditu sumiu

Vai seu Benedito

– Tá boniitu... vai faze exami di feze?

– Ora... vá à merrrda!

Benedito seguiu pensativo

Na cabeça de Benedito: será que ele tá falando porque sabe? porque oviu?

Minha nossa... aquela vaca disse que não ia faze fofoca! Puta que....

Falou di exami di feze. Fezes. Por quê?

Passo pelo mermo caminho, tava me tirando pra marica, me sacaniando. Aquele cabra de uma figa! Com um tanto de cabelo branco, já deve te passado pela vergonha...



O carro em alta velocidade

BIBIIIIBENNNN! OLHA A RUA SEU VELHO MALUCU!

– BARBEIRU FILHA DA PUTA, BANDALHEIRU! COMPRO A CARTEIRA, SEU DESGRAÇA!



Benedito seguiu pensativo

Quasi ralei meu cú nu chapiscu. Ai meu deus! faz isso comigo não, me dá um sinal, só um sinal... isso não ta certo! um homi que nem conheço invadindo minha intimidade, minha coisa di machu...


Dona Maria

na cabeça de Benedito: – dexa di fala bestera Benedito! Já marquei sim! e você não vai sumi coisíssima nenhuma. Ah... para homi! Cê tá com medo de disfaze a masculinidade? Si garante não, homi?

– mi garanti? ... ai meu deus! é aqui. Largo das flores, 747.

O homem entrou andado simplesmente

– Senhô! Senhô... tenque dexa indentidade. – desesperou-se o porteiro.

– identidade uma ova. – resmungou Benedito entrando no elevador.

Benedito parou pensativo

Acha que eu queru me identificá? quiria mermo era tá de disfarci, coisa meio 007. Mas aqueli cara não... era machu!

Tinha que sê 402... Olha, sabia! É númeru di viadu, o cãnalha boto au contráriu só pros otárius não repara.

– vô imbora agora! Tá pensandu que vai me açoitá, tá muuuito inganadu.

Surge um senhor de fraque salmão

– Posso ajudá-lo? O senhor deve me perdoar, estava almoçando e regressaria logo logo. Esperou muito?

– quem eu?

– É! o próximo paciente, não?

Benedito olhou para baixo e percebeu que o homem tinha uma perna maior que a outra, voltou a olhar para cima e reconheceu aquele olhar.


– Nadinho? É você?

– Benedituuu...

– ham! Que dize que tu viro médicu? (no bom sentido é claro!)

– xiiii! Entra ai.

Entraram ambos felizes e sorridentes. Até a secretária entortou o nariz para tamanha alegria naquelas circunstâncias.

Conversa vai, conversa vem...

Benedito fez o exame

– nem foi tão mau assim... mas não conta pra ninguém não, hein oh? Nadinho Boca Mole. Hahahahahahhahaa.

– Segredos da profissão! Vô ti dize que uns até se perguntam por que nunca experimentaram antes...

– Disconjuru!!! Cambada de baitola...

– HAAAHhhahaha! Não precisa ser com homem, né oh?


Benedito pensativo...


– Então... Beneditu, foi muito bom te encontra. Ééé... Já que mora aqui perto, o que acha de almoçarmos amanhã? pra botar o papo em dia.


Benedito pensativo... e de boca aberta...


– tá doidão? é Zé Machão! HAHAAAahaha!

Agora lembrei! Era assim que a galera te chamava Zénedito. Sempre com a mesma cara, o mesmo olhinho.

– Ih! Sai fora Boca Mole. Cê também não é das maiores beldades.

– Enfim, tenho um paciente agora, e o almoço? Pode ser?

– Mas é claro! Quero saber como cê entro nessa bocada de médicu.

– então até amanhã. Fica combinado 13h.

Nadinho Boca Mole levou Zénedito até a porta como nos tempos dos jogos de botão em seu quarto.

Bons tempos aqueles... Benedito desceu aliviado como se tivessem tirado uma bigorna das suas costas.

– Quem diria? Maria Louca não vai acreditar quando eu contar.

Dona Maria Louca

– viu só? Sabia que num ia tê male algum! Vô passa seu terno pra amanhã cê ta bem bonitão... meu maridão importantão!

– muuitu bem mulhé, vai cuida do seu maridão importantão!

Enquanto isso... Benedito parou pensativo

Boca Mole... quem diria? meu chapa. Amanhã vô sabe como ele viro médicu... ops! Pêra ai! Ele é meu urologista. Meu deus! Sai fora, não posso almoça com esse homi. Ainda mais amanhã, vão dize que gostei. Zénedito seu animal! Burro pra caralhu! E agora?



No dia seguinte, Nadinho ligou para a casa de Zénedito para saber se estava tudo bem

– Alô! Por favor, o Seu Beneditu esta?

Dona Maria

– Beneditu sumiu!

terça-feira, 9 de junho de 2009

escrever na fugacidade dos séculos
só se for em arabesco
trançado a finas tramas
tecido de formação

quinta-feira, 14 de maio de 2009

GOELARDENTE


goelardente goelardente goelardente
goelardente goelardente goelardente

Um hotel de infinitas facetas
corredores ignorando horizontes
Cada canto um arranjo peculiar
Chão de rabo de pavão, paredes discotecadas, aromas afrodisíacos exalados por plantas exóticas e tropicais,  pessoas cristalizadas em carros alegóricos, boás, marabús e estolas, lantejoulas, bolhas de sabão... é carnaval! (bad trip) quitutes da casa da vovó, barmans pretos, gregos, todos nus, ostentando suas oceânicas serpentes em bandejas e servindo drinks caleidoscópios em vidros coloridos.

Lá fora era só neve, tanta, que a paisagem era uma fotografia em papel couché branco brilhante – ruína da história que se passara.
Para mim ainda não há passado
O tempo insólito deita sobre mim sua gosmenta e movediça sombra
Confinei-me a viver para sempre, ali
isso...
se a reinvenção de algo que nunca vai deixar de ser
existir realmente

Jofrey, por favor:
um drink no inferno.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

ele ligou de novo.
digo sim, digo não?
...é
o amor tem dessas coisas
um não sei o que de librianos

segunda-feira, 13 de abril de 2009

venenosa e doce

ou chamamento deSamor de Bruxa


ávido desejo de espera

eis que caiu a noite

uma madrugada fria

por não estar distraído pisou em falso, manipulando

curvas e aromas e delícias

o veneno escorreu; sentiu desabrochar o antídoto (oposto extremado de forças límbicas) de metabolismo voraz

inseto invasor de flores

a planta carnívora ataca e o engole lírica, amorosa.

doce fel dos desamores sem nome, sabor de não deixar-se distraído e não dizer...

profeticamente nomear o caminho amaldiçoa o errante – erra pensando naquele reflexo do nada inominável.

ai liberta-se da verdejante fonte que nutre e não cessa

perpetua-se venenosa e doce

sábado, 11 de abril de 2009

vem comigo, no caminho eu te explico...


indefinido sem saber ao certo em qual traço me traço.

um invólucro de chamas remediadas aceleram o ser que há em mim

fonte do que não era – nunca devia ter sido.

unidade indivisível da expressão, o estômago embrulhado de papel crepom dolorosamente descolorido.

não devia ter me metido a fazer o que não era para ser feito.

é o caos!

sou o caos...

organizo no centro partes estilhaçadas de uma mesma coisa

antes múltipla; agora retalhada.

esfumaçado ando, ultrapasso pontos de vista, derivações, poderes; paredes indefiníveis de um tijolo unânime.

tem uma cabeça de macaco na ponta do meu lápis. escreve intenso sem saber se é de hoje que começou a pensar em símbolos; psicografar saberes inconscientes reunidos em um lugar ou não-lugar.

a escolha é fria, ávido desejo dos ventos, sentimentos invisíveis retos batidos inalados em absorção sem fôlego.

trôpego desço aos confins do universo

um invólucro de chamas remediadas aceleram o ser que há em mim

incrédulo olho para o céu de um banheiro no submundo (que é o meu) a luz fria ardente de partículas embolotadas.

paredes raspadas pelas unhas de animal dopado escancarando face, segredo incorpóreo desatando mascaras malignas sociais.

ato ou efeito de incrustar-se com comportamento limoso, escorregadio

vadio ao nada.

malandro dos becos ilustres desviando da linha reta; obliquamente a um plano ou uma direção.

me faço traço!

um grito incontido me arde a garganta – não – mais uma só mais uma...

uma verdade verdadeira, umas caras de esculacho.

sf. 1. Ação de atormentar, de perseguir. 2. Psiq. Sentimento ou ideia que, gerando angústia, se impõe à consciência de um indivíduo. [PL.: -sões.]

obsessão, me diga se entende melhor?

sf. 1. Pesar de ter cometido ação má ou pecado. 2. Pesar profundo. [Pl.: -ções.]

não é o que você esta pensando

esta pensando em compulsão, não é?

é isso,

mas errou,

eu errei e só achei compulsivo – que compele, irreprimível.

compulsório – que obriga ou compele.

é! fomos compelidos a acreditar que compunção (é isso idiota!) compunção e não compulsão...

vá ao dicionário, até você pode buscar essas definições de merrda da grande bosta social.

vai,

até você pode ser Aurélio.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Entravamos na casa pela primeira vez.


Era como um sonho: uma porta maciça se abriu...
logo pisamos em azulejos perolados.
Móveis imponentes, coloniais.
O ambiente era climatizado a óleos essenciais de rosa branca, gerânio e cacau.
Deliciosamente agindo no cérebro, sistema de engrenagens límbicas.
Guardamos nossos instintos primários, silêncio de vontade, introspecção.
Nebulosidade.
Do ápice da escada para o centro do hall desciam triunfantes as quatro senhoras, com vestidos floridos e tão coloridos quanto a natureza pudesse suportar. Porque a natureza não era ser bela e sim, elas.
Lançavam-nos olhos curiosos - secreto assombro de tias.

- Que casa magnífica! Parece um castelo medieval.
Moram sozinhas aqui?

- Sim

Olhávamos um para o outro como se algo nos inquietasse.

- é que nunca demos as mãos...

De fato, reparamos que cada qual tinha exatamente duas mãos desaneladas.
Inalávamos entorpecidos de sensualidade e auto-estima.
Seriam elas casais?
agindo, portanto, de maneira indireta como convenientes tias.

Vencendo o medo e a timidez, ele disse com voz empedrada:
- As titias são unidas por laços desatáveis, laços consanguíneos.

Forjavam o mistério das mulheres autossuficientes. mulheres de seio ancestral, equilibradas em vigília eterna; feiticeiras mumificadas no tempo.


Sozinha, tocava-me um sentimento alheio.
Inspirava esfumaçadas lembranças guardadas numa região inefável.
Comecei, de repente, a ponderar as coisas, como nunca; nunca antes.
O que estava acontecendo?
Sentia um tipo de mudança hormonal intensa, como se o cheiro exalado pelo meu corpo mudasse decisivamente.


Confissão:
contorceu-me uma hipervisão insatisfeita, não mais o olhar suave de antes.
Ele borrifava desconexo aerossóis desconfortáveis - quilos e quilos de glândulas selvagens.
desfiz-me surpresa naquele etéreo sinal.
Não era nada, só a certeza do erro.
Porque o despertar afrodisíaco deve partir de íntimos fluidos.
Coisas secretas do amor!
Corporificação
Ou não podemos dar as mãos...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

devaneio em 40segundos


No desconhecido é aonde tudo acontece. as Influências são invisíveis; não percebemos o traço instintivo da busca. Buscamos, sim. Pelo simples fato de buscar alguma coisa. Completar algo que não se completa, algo incompletável. Somos pela metade. se ser fosse holístico, não seria ser e sim, seria... é!

HAHAhahahahaha!

Indefinidos por um alfabeto volúvel, que se altera pela vontade de quem? Também não sei, ora bolas. de terceiros, quartos, quintos dos alteradores de discursos. Que há séculos atuam desconstruindo mentes seguras de si. transformando tudo numa roda-gigante de um parque enferrujado, sem alvará e no interior de um lugarejo.
Renunciaremos à diversão, indevidamente compenetrados em sobreviver em circos perigosos de parafusos caducos cor de telha.

Só sei que percorreremos as veredas do espaço, não de qualquer espaço, porque qualquer espaço de força gravitacional ainda não foi comprovado cientificamente, mas de espaço sideral.
da poeira cósmica, do buraco negro, da falta de leis, das estrelas... sinestésicas fantasmas (semi-mortificadas).

Sopraram em meu ouvido que a ideia esta no ar, não esta ideia, qualquer uma, seja ela infrequentável ou não. Uma força fotográfica fixa a ideia em mim como uma imagem 3D. Percebo-a em perspectiva de mundo; de um mundo assolado por mídias regraváveis.

Preveem; lhes pergunto: Alguém me entende? com tanta falta de acento?
A comunicação esta ai, esta pairando querendo nos dizer alguma coisa...
onde estão os ORIGINAIS? ou o que quer que sejamos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sonhando acordada


memória e esquecimento
o mundo de
ahh! como é bom
eu vejo tudo
com mãos aveludadas

PAIXÃO SEGUNDO prazer esfumaçado


tédio insuportável.

prazer solitário com cigarros quase enfileirados.

uma abaulada cadeira de vime espreitava um jardim de pedra, planície imóvel.

vigília constante como instintiva noção do espaço, desguiado por perninhas confusas.

o corpo estático e cortante assume posição de ataque.

deitada em horas desbaratadas, espero, espero... o momento certo...

o momento de PULAR... PEGUEI!

pressiono-a sob força controlada. dou-lhe chance com um suspiro de esperança; ela corre embriagada com a vontade de outros que já estiveram assim.

acho graça

cócegas latentes quase pequenas.

às vezes nunca, uma compaixão pulsava demasiado estranha.

queria entender porque essa obsessão? só com elas, sempre com elas.

Asquerosas e Crocantes como outros que já estiveram assim.

patadas bruscas e suaves para ganhar tempo, arranhões dissonantes a suspendiam levemente do chão, petelecos levitantes, rodando, escorregando, encerando.

subitamente encararam-me quatro olhinhos amarelos; revidando descobri uma estrutura semelhante a um óculos - óculos de silicone oval, as hastes negras.

“Só estava indo dar comida para meus filhotes” divergiu no ar.

senti um enjôo tremendo borbulhando do estômago.

lembrei de meus amores líquidos, amores que se vão, algo sempre em correnteza.

Me Perdoe senhora, pensei.

Clarice – respondeu.

Já ouvi este nome!

Não importa,

desisti de ser na hora e com gritos de insatisfeção!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Transtornos Neuróticos Contemporâneos



Semanas esperando
Um curso de sábado; nunca imaginei tamanha ansiedade.


No dia de realizar meu desejo, há tanto incubado, acordei 10h da manhã. A contação de histórias começaria 14h, não precisa dizer que é da tarde, né? isso mesmo! era um curso para aprender a contar histórias, e a ouvir também. Mas não pense que era um curso clandestino, para mentirosos, estelionatários, ou algo assim; pelo contrário, era um aprendizado de vida - vivida e vivenciada.


Passei noites em claro, confabulando: o que diria? qual história contaria? como me comportaria? será que gostariam de mim? da gola do meu vestido? (essas ocasiões pedem gola, e das grandes) e do meu cabelo? Acho que dei uma exagerada no laquê, é, uma levíssima exagerada.


MEUS DEUSES DOS CÉUS!
O relógio marcava 13h.
Fiquei com os movimentos desarticulados. Estava atrasada!


Comi rapidamente, coisa que não estava acostumada, um macarrão alho e óleo, eis outra coisa incomum, pelo menos para mim. Consegui a receita com uma amiga, que ao ditá-la, confessou o tal segredinho, aquele que existe em qualquer culinária. Para ficar perfeito, no ponto... muito óleo, ou muito alho? Por via das dúvidas, usei muito dos dois.


Sai correndo, nem assim. Correndo, esbarrando, suando desengonçada, atropelando transeuntes alheios...


Cheguei quase 1h atrasada. Que vergonha!
Acomodei-me em uma cadeira na última fileira.


30 min depois, meu estômago começou a reivindicar existência.
Como se o houvessem engravidado dois monstros fantásticos, ele se remexia, se contraia, se tremia espasmodicamente...


Agüentei essa luta mediúnica sabe-se lá quanto tempo. Mas fui valente, forte, inteligente, despudorada... é despudorada! Pois, vagarosa e elegante, corri para o banheiro. Fiz isso barbaramente decidida!


Chegando ao jardim das delícias, quase um lapso de orgasmo, a não ser pela triste verdade: as duas únicas cabines estavam ocupadas.


Me remexi, me contrai, me tremi.


Quanto mais eu rezava, tanto mais a fila atrás de mim crescia; brotavam mulheres por todos os lados, quase uma procissão improvisada (claro que se outras estivessem rezando, talvez até estivessem, por motivos diversos, dos quais jamais saberemos).


Os monstros do estômago ainda guerreavam bestiais.


Finalmente, uma senhora saiu do banheiro e disse “não tem papel!”


Olhei estarrecida para os lados, mexendo a cabeça num ritmo descontrolado, e percebi aquele maravilhoso papel lixa de secar as mãos. É isso!


Entrei na cabine como quem descobre o sentido da vida. Descarreguei toda minha consternação, sem me preocupar o quanto esse despertar de uma nova vida seria inoportuno. Frente à irrelevante platéia, deu-se o legitimo Nirvana, acessível, aflito, malcheiroso!


A pior desgraça estava por vir, porque a senhora mensageira do papel esqueceu-se de avisar sobre a falta d’água. (AAAAAAH!!!!)


Despencando em meio a assuntos femininos e risinhos extrovertidos, retirei leite da pedra, pois em abrangente meditação, consegui um último e tímido esguichinho.


A tampa estava fechada, recorri a todos os santos e também aos deuses que tinha apelado antes, mesmo tendo eles sido bastante ingratos.
Por favor, rogai por mim, crente pecadora! levem essa maldita escultura de barro falsificado.


Quando tive a coragem de abrir...


Lá estava ela, uma bolinha abastada, rebelde e cheia de si mesma.


SIM! VOCÊ saiu vitoriosa!


Só não lhe disse umas boas verdades, porque minha situação ficaria ainda pior: a coisa estava preta, definitivamente, não cheirava bem.
Com o gritinho de agora pouco, já ouvia dissonantes comentários. (Tá bem! Não foi tão gritinho assim; vamos, cortem minha cabeça, acabem logo com isso!)


Precisava pensar em outra saída, outras possibilidades.
Deixar aquela bolinha ali, fora de cogitação.


Pensa; Pensa; Pensa. (Todos os meus pensamentos foram despejados).


Pegue-a.
Sopraram no meu ouvido. Não sei de onde veio esse impulso - eu juro!


O câncer se apossava de todo meu corpo. Precisava sair dali, daquele buraco, daquele antro fétido de excretas.


Distraidamente, começava a ver flores multicoloridas, suculentas, exalantes de um aroma a dama da noite. Um alivio, estranho abismo da imaginação.
Sentia-me debruçada em uma janela sem vista; enxergava madeira maciça, uma porta fechada para o mundo, que corria despercebido.


Imbuída num desespero enraivecido, fora desse corpo, acertei a mão delicada na afável lixeira, para resgatar meu próprio papel, afinal, era meu, e eu não poderia investir nessa empresa de mãos abanando.


E foi assim: com meu próprio papel, tentei agarrar minha própria bolinha.


NÃO!


Ela se desfaleceu, multiplicou-se claramente e revidou: “Somos todas parte de você, mulher despudorada!”
Aquela bola de merda!


“VAI TOMAR NO CÚ!” Respondi a altura da baixaria.


Derrotada.... procurei me recompor. Sem tocar em mim, é claro!
Levantei o olhar de mulher despudorada, sai da cabine e elegantemente avisei à seguinte:


“Cuidado! Está sem água”.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

estarindo sendo


(foto: Daya Gibeli)

quem sou enxerga o duplo das coisas estáticas. a sombra do ser que não é.

Caleidoscópio de coisas macabras e multicoloridas, transgressão do além de um além.

Aquém desse mundo parado, perpetuo-me em lugar que de corpo permaneço e de alma estremeço; do avesso e vice-versa.

Viagens infinitas pela janela do mundo. imagens disformes, reescritas, atadas...

Deliberada, enfim, deixo caminhos do passado, demolidos logo atrás de passos embriagadamente firmes.

Sem saber ao certo quanto é? o que vale? um aprendizado, subjugado, alado, salvaguardado.

Vida de inseto; vivo no teto, grudada, com pernas minúsculas, de cabeça para baixo ou para cima, não sei.

Só sei que questionam: à que conclusões, invenções, ilusões, intenções; no caldeirão maldito de todos os “ões”

grilhões de distorções forjando conscientizações.

Morando dentro de mim há um vão inconsumível, fantasiosa lacuna de rachadura espumosa, queda de bolhas: a norma do ser e o direito do dever; estas transportadas pelo plasma como qualquer hormônio (des)regulador.

Só me resta o “querer” soterrado em terra improdutiva, desvairada astúcia do homem, que pensa que é, mas é apenas a sombra do que não é...


domingo, 23 de novembro de 2008

Amores líquidos



Um olhar em suspiro de tempo etéreo. Pêlos longos ondulavam-se esbranquiçando a ardósia do chão. A languidez abaulada continuava a mesma... sempre.



De um lado para o outro; de lá para cá, de cá para lá, lá cá, cá lá.

(o rabinho presunçoso).

Numa noite acinzentada, de movimentos espaçosos e carnais, uma imagem esvaiu-se em corpos inexistentes pela ausência do dentro.

Quase atingindo a irmandade de serem idênticos; Cores quentes, Olhares aluados, Felinamente Scorpiones... solo distante, de almas esculpidas para amar, tamanha a beleza de seu desembaraço.

Uma textura acromática derramou-se pelo entorno, tingindo-o com maciez e rugido.

oh! Ohooooohiiiiiiuiiuiui! Aleluiaaaa!


O milagre delicioso da vida. Densamente Acontecendo. rebentos desse mundo que não existia, um mundo sem vontade.

lugar que surge e independe de gênero.

Primeiro abrangem possibilidades e verossimilhança; depois a matemática perfeita, imponderável.

Vega, espantosa genética de gigantear-se em estrela mais brilhante











Tigresa pintada, evolução analogamente ancestral de manchas chapelisticas.








Wiska, fenótipo Ursae por quatro ventos que lhe sopravam aquela predileção.






Menorzinho, pela rebeldia ao apego à consangüinidade. sem permissão para emancipar-se tradicionalmente, eterniza-se em si mesmo.





Apenas um grito, que por ser o mais alto, dissipa-se ao ser dito.










Publicizando sua alma secular e ofegante, vai para a pedra escondida no breu invertido da madrugada.





A matriarca Lua Branca Branquinha Marilyn Moore assiste o pulsar de águas impetuosas e corporificadas, fluindo sem destino ao além-terra.

A vertigem por um fio em espiraL



Sempre chego à escola no mesmo horário.

Sento no meu banquinho, beirando a fonte dos prazeres onde ele se debruça, matinalmente, feito um ritual.

Sei bem que ele vai passar

A qualquer momento eterno, para se banhar de uma água rápida que inunda.

De rabo de olho, capto um milhão de imagens da gota que escorre lúcida.

Se tremo? Não sei, mas chego a ficar anestesiada.

Obvio ninguém percebe porque a conversa flui normalmente. Não mudo nem a expressão, ganho uma capa, um revestimento de cera, o rosto assume uma feição inteira, inesgotável.

O momento é engraçado, como se tivesse que assumir dois corpos: são dois, que se complementam, se dissipam, seguem opostos, retornam e me fundem.

A cabeça até apita!

Final de semana? No caminho frenético do real ao imaginário, digo sim, digo não.
Minha fantasia não era prêmio de se dividir com ninguém...

O sino badalou três vezes.

Cada som de alerta me deixava à espreita.

A lei imposta era: tentar a qualquer custo roçar os cotovelos.

Com passos sincronizados ultrapasso barreiras de gente. Intacta, calculo milimétricamente e entro com toda força na ressaca de ossos sedentos, estranhos, mas que se entendem pelo toque, quase artificial.

A cadeira da frente era grafada com a marca da minha ambição, aquela terra era minha, foi lá que conheci o mundo e me curvei a ele. Talvez não possa ser meu! Mas preciso existir me materializar. Dar um jeito de tocar a testa dele e aparecer, é pura física, lei das possibilidades.


Um belo dia quando a monotonia tomou conta de mim,
sentada no vale da expectativa desmedida, só buscava a face do tempo em que tudo andava devagar, perceptível, insolúvel.


Numa fração obscura, o adesivo da caneta pregada entre meus dedos incomodou. Estava obstinado a tomar aquela ânsia de acontecimentos para si, grudava e repuxava os pêlos invisíveis, reivindicando existência. Com desdém arranquei o adesivo inconveniente. Quanto mais tentava me livrar, mais se aderia à ponta de meus dedos.

Em meio àquela luta interna, a sala começou a se movimentar e preencher seus lugares, como num aviso de alerta: “Ta na hora.”

Já ultrapassava a porta com olhar compenetrado, assim, livre de julgamentos.
Sentei-me corretamente, meus olhos logo mudaram de rumo para iludir indiferença.
Ele, nervoso, deixou cair o apagador, uma nevoa densa veio de encontro a mim e um espirro ensurdecedor saiu descontrolado.

Apertei o nariz da vergonha para que não se repetisse.
Com uma delicadeza espontânea, ele me olhou desejando saúde.
Para agradecer sorri e senti alguma coisa colada em meu nariz.

“Como assim?”

Minha mão involuntariamente tocou uma coisa gosmenta que meus olhos alfinetaram.
Foi minha pena de morte.

“Uma meleca!”

Durante um segundo, pairou este pensamento.
Num outro flash brotou a caneta e o maldito adesivo que foi um intruso em minha vida.

Devo ter ficado horas trabalhando ele, enrolando...
Fazendo-me inteira com a visão do céu e caindo direto no inferno.

“Que ótimo!”

E ele de costas, provavelmente, estava rindo com seus pensamentos:

“Que meleca enorme”

Tava escrevendo até mais lento.

“E essa coisa? Será que ponho no chão? Me larga!

Se bem que... abaixar vai ser terrível.

A cadeira... cruzes!

Que nojo!

Pêra ai? Garota, você ta ficando doida é só uma bolinha verdinha de cola.

Nossa, mas como lembra uma meleca!”

Ai, ele virou de novo para mim, deu o sorriso mais lavado do mundo, despudorado.

Fiquei com as mãos aparentes e comportadas.

Não podia achar que dispensei a prova do crime na cadeira ou na mesa, seria um cataclismo. Precisava ficar firme só mais umas duas horas, talvez menos, talvez mais.

“Eu agüento!”

E se eu fosse ao banheiro? NÃO!

Ai ele vai achar que meu nariz está imundo há horas e eu não tive a coragem de limpar.
Melhor ainda, tenho certeza de que não viu a meleca...

Pior é que com certeza viu!

“Calma só mais duas horas”, meditava incansavelmente.

Já cansada daquela situação nojenta,
tive uma grande idéia: colocar a carrasca bolinha na folha do caderno.

“É TUDO!”

Isso! todo mundo mexe no caderno na sala,
não esfrega a mão na mesa, nem na cadeira, mas no caderno...
Meus dedos foram autônomos, como se estivessem caminhando rumo ao pôr do sol,
em total sincronia.
No meio da discreta folha branca, brotou uma coisa gigantesca que esmaguei impiedosamente com a capa do caderno.

O terremoto estrondoso chamou a atenção geral.
Havia um tempo em que não estava ali e agora estava.

Ele se aproximou lentamente com ar de desaprovação, meus olhos se lubrificaram de vergonha.
Segurou o caderno, eu agonizei.

“Para, pelo amor de deus!” Supliquei em silêncio.
Tentei me manter calma e disse para ele ter calma,
enquanto abria a capa do caderno e retirava uma folha, a folha...

“Essa não!”

Gritei no vácuo, dava passos e mais passos para escuridão no abismo da loucura.
Cada furo que se soltava do espiral me embriagava de vertigem.

Tudo ficou preto, não sabia se era sonho ou verdade.

Acordei em um lugar todo branco, iluminado,
impregnado com um leve cheiro a formaldeído.

“Será que morri?”

Logo veio um homem todo de branco perguntando se eu estava bem, se era a primeira vez que isso acontecia.

Respondi que sim.

Bem,

pelo menos fui para casa e nunca precisei saber o que aconteceu realmente.

sábado, 25 de outubro de 2008

Carranca, pirata de todos os mares


Carranca era o mais horripilante pirata de todos os mares.


Também era o mais feio, o mais mal-humorado, o mais briguento, o mais egoísta e mais; mais tudo de ruim que tiver no mundo inteiro.


O pirata de todos os mares não tinha amigos, tampouco uma tripulação para comandar em seu caveirento navio.


Viajava sozinho com uma perna de pau falante que fora amaldiçoada, há muitos anos atrás, pela Feiticeira Ecritela, conhecida como nariz de tomada.


A tagarela perna já tinha ganho vida própria.


Tinha até nome, chamava-se Nenhumpio.


Era tão independente, que nem parecia fazer parte do corpo de Carranca.


Um belo dia, navegando para a imensidão do sem fim, Nenhumpio avistou uma cristalina garrafa boiando.


– CARRRRAAANCA! GARRAFA À VISTAAAA! – gritou a perna bamboleando.


– Controle-se criatura!! – respondeu trocando o rumo da embarcação.


Seguiram em direção a garrafa.


Chegando bem perto dela, o pirata de todos os mares jogou uma rede para pescá-la.


– O que é? O que é? O que é? – desesperava-se a perninha.


– Quer parar com isso?!


– Foi você quem começou! Para que tanto mistério? – queixou-se a perninha impaciente.


– Não seja tolo, seu pedaço de pau insuportável! – e argumentou nervoso. – O dono pode estar por perto, precisamos nos disfarçar.


Carranca vestiu um fabuloso cocar multicolorido para o caso de passar algum navio.


Pronto! Estava pronto.


Agora era impossível que desconfiassem de alguma coisa.


Abriu a garrafa, cuidadosamente, para não danificar o envelhecido papel que estava dentro dela; quase um pergaminho.


No pergaminho tinham uns escritos estranhíssimos, talvez até de um povoado ainda não descoberto.


Mas, no meio daquele bololo de letras minúsculas, o pirata de todos os mares descobriu um X vermelho levemente apagado.


– UM TESOURO!


– xiiiiiii!


Nenhumpio engoliu a empolgação.


A viagem em busca do tesouro começou imediatamente.


Navegavam navegavam navegavam... durante dias e noites.


Nunca fizeram uma viagem tão grande em busca de um tesouro.


“Deve ser enorme”, pensava o pirata todos os dias.


Chegaram a uma ilha deserta, muuuito distante.


Lá, da praia, contaram trinta e três passos, dezessete coqueiros, duas palmeiras imperiais, cinco pitangueiras, dois macacos (que com passar do tempo já tinham um filhotinho), treze pedras arredondadas, um bambuzal verde e amarelo, uma poça d’água suja e...


– O TESOURO!


– Cale-se Nenhumpio! A floresta pode nos ouvir... – disse baixinho.


Carranca cavou, cavou e cavou de novo, até que... pá!pá!pá! a terra ficou dura como pedra. Tinham achado alguma coisa.


Então o pirata de todos os mares retirou do buraco um enorme baú.


“Bem como eu esperava”, pensou ele.


– Nouuussa! Estamos ricos mil vezes infinito!


Quando Carranca abriu o emperrado baú, tanto a contente perninha tagarela como ele próprio ficaram desapontados.


– Mas o que é isso?


– Parecem coisas de neném.


– Não sou cego Nenhumpio! Isso deve ser alguma brincadeira!


Carranca impaciente e com as mãos para traz começou a andar de um lado para o outro.


Enquanto isso, Nenhumpio analisava o tesouro, mas sem conseguir vê-lo direito, pois o pirata de todos os mares não parava quieto, e a perninha era um pouco míope, ainda mais, quando estava em movimento.


– Olha! Tem muita coisa de prata, a gente pode vender na cidade.


Carranca reparou que, pela primeira vez, Nenhumpio tinha razão. Agarrou o baú e começou a fazer o caminho de volta.


Passando pela poça d’água suja, pelo bambuzal, as pedras... chegando bem onde estava a família de macacos, cruzou com um senhor de uns setenta anos, que o parou e perguntou para ele sobre o baú.


– Achamos primeiro seu velhaco! Precipitou-se a perninha


– Continue marujo. – disse Carranca


– Meu bom homem, estou há setenta anos procurando este tesouro. Tem uma coisa nele que me pertence... somente uma coisa.


– Darei o que é seu de direito por uma condição.

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– Senhor... é apenas o último pedido de um ancião.


– Como chegou aqui? Se nós estávamos com a garrafa?


– Vinha nadando do mar vermelho em busca dessa garrafa perdida. Foram tantos anos, muitíssimos anos..
Até que avistei uma luz cristalina refletindo na água. Percebi eufórico! Mas vocês foram mais rápidos do que eu.


Carranca e Nenhumpio fitaram os pés do velho e perceberam que ele tinha guelras enormes.


Com certeza tinha vindo nadando.


– Veja lá o que vai escolher! – aconselhou o temido pirata, largando o baú no chão.


O homem ajoelhou-se diante do baú e começou a jogar toda aquela quinquilharia para o alto.


Retirou do fundo do baú uma chupetinha transparente, de plástico.


– Obrigada! Ainda bem que vocês gritaram que a garrafa estava à vista, assim pude me aproximar do barco e ver...


– Veja seu paspalho! Fica gritando o que não deve. – dirigiu-se a Nenhumpio


– Se acalme seu pirata, não foi por isso que eu vim parar aqui, na verdade, foi só coincidência.


– Coincidência?


– Observe que eu cheguei pertinho da embarcação e vi voando lá de cima, até a água aonde estava, uma pena verde-alaranjada. Ocorreu-me na hora que deviam ser índios navegadores e que, com certeza, o tesouro estaria numa ilha tropical.


– E veio parar logo aqui? Nesta ilha, essa mesma ilha, só esta, mais nenhuma?


– Vim seguindo o rastro de penas; ora bolas!


O cocar realmente havia chegado mais magro.


Carranca sentiu-se um idiota.


– Vá logo com isso!


O velho feliz da vida quis retribuir ao quase pirata; quase porque um pirata de verdade nunca daria, sem uma luta de espadas, parte de seu tesouro.


O velho retirou do bolso uma lustrosa moeda de ouro e deu para Carranca.


Depois o velho correu para o mar, mergulhou fundo e sumiu para sempre.


O pirata de todos os mares, pela primeira vez, parou para pensar...


Pensou que não se lembrava de ter tido uma chupeta quando criança.


Seus olhos se encheram d’água; fitou Nenhumpio que já chorava silenciosamente.


Olharam-se com ternura.


– Nenhumpio, você é o único que me apóia.


– Também te amo. – desabafou a perninha, já fazendo uma poçinha no chão.


Foram embora tão felizes, mais tão felizes, que até esqueceram o tesouro.


Por outro lado, a moeda de ouro...

enfiaram no bolso da casaca.